A caminhada como prática de resistência: uma análise a partir da visão sociológica de David Le Breton / Walking as a practice of resistance: an analysis from the sociological view of David Le Breton

Sílvia Maria Agatti Lüdorf

Resumo


Caminhar é uma das práticas corporais mais elementares, mas que pode assumir diferentes significados a depender do contexto social e histórico. No âmbito da sociologia do corpo, David Le Breton é detentor de uma posição de prestígio intelectual e científico, porém, suas obras e reflexões sobre a caminhada são ainda pouco conhecidas no Brasil. O objetivo deste artigo é analisar como a caminhada pode ser considerada uma prática de resistência, a partir da visão sociológica de Le Breton. Com base em fontes documentais e entrevistas com o autor, foram desenvolvidos dois eixos de análise: o primeiro explora a caminhada como forma de resistência a determinados aspectos da sociedade contemporânea, que privilegiam a velocidade, o efêmero e o caráter utilitário das relações e emoções; no segundo, a caminhada emerge como uma forma satisfatória de desaparecer de si, diante da resistência à imperiosa necessidade de lidar com diferentes identidades imposta pela sociedade. Estudar a caminhada nessa perspectiva pode colaborar para o repensar das lógicas presentes em torno das práticas corporais e – por que não? – presentes em nosso enraizamento social. Refletir sobre aspectos sociológicos fundamentais ligados a ser corpo é mais que pertinente quando valores associados ao ritmo vertiginoso de nossa existência estão sendo colocados em xeque.

***

Abstract

Walking is one of the most elementary bodily practices, but it can have different meanings depending on the social and historical context. In the field of the sociology of the body, David Le Breton holds a position of intellectual and scientific prestige, however, his works and reflections about hiking are not well known in Brazil. The aim of this paper is to analyze how walking can be considered a practice of resistance, from the sociological view of David Le Breton. Based on documentary sources and interviews with the author, two axes of analysis were developed. The first explores walking as a form of resistance to certain aspects of contemporary society, such as speed and the ephemeral and utilitarian aspects related to the social relations. In the second axe, walking emerges as a satisfactory way to disappear from yourself, as it is important to resist to the imperative need of dealing with different identities imposed by society. To analyse walking in this perspective can collaborate to rethink the logics that operate around bodily practices and – why not? – present in our social roots. The reflection upon fundamental sociological aspects of being a body is more than pertinent in a social context where values associated to a dizzying rhythm of our existence are being put in check.


Palavras-chave


Sociologia do corpo; Antropologia do corpo; atividade física; caminhada; práticas corporais

Texto completo:

PDF

Referências


AALTEN, Anna. Listening to the dancer’s body. The Sociological Review, v. 55, n. s1, p. 109-125, 2007.

ALMEIDA, Jalcione. Corpos, emoções e risco como objetos sociológicos. Sociologias, v. 21, n. 52, p. 09-16, 2019.

BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

BÉTRAN, Javier O. Las actividades físicas de aventura en la naturaleza: análisis sociocultural, Apunts, Educación Física y Deportes, v. 41, p. 5-8, 1995.

BLACKMAN, Lisa; FEATHERSTONE, Mike. Re-visioning body & society, Body & Society, v. 16, n. 1, p. 1-5, 2010.

BOURDIEU, Pierre. Sport and social class. Social, Science, Information, v. 17, n. 6, p. 819-840, 1978.

BOURDIEU, Pierre. Homo academicus. Paris: Les Éditions de Minuit, 1984.

CRARY, Jonathan. Late capitalism and the end of sleep. Londres: Verso, 2014.

CRESWELL, John. W. Research design: qualitative, quantitative and mixed methods approaches. 2. ed. Londres: Sage, 2003.

CROSSLEY, Nick. (Net)working out: social capital in a private health club. The British Journal of Sociology, v. 59, n. 3, p. 475-500, 2008.

CROSSLEY, Nick. Researching embodiment by way of “body techniques”. The Sociological Review, v. 55, n. s1, p. 80-94, 2007.

FEATHESTONE, Mike. The body in consumer culture. In: FEATHERSTONE, Mike; HEPWORTH, Mike & TURNER, Brian. The body: social process and cultural theory. London: Sage, 1999. p. 170-196.

GIDLOW, Christopher J. et al. Where to put your best foot forward: psycho-physiological responses to walking in natural and urban environments. Journal of Environmental Psychology, v. 45, p. 22-29, 2016.

HUTSON, David J. Your body is your business card: bodily capital and health authority in the fitness industry. Social Science and Medicine, v. 90, p. 63-71, 2013.

LAHIRE, Bernard. Reprodução ou prolongamentos críticos? Educação & Sociedade, v. 23, n. 78, p. 37-55, 2002.

LE BRETON, David. Desaparecer de si: uma tentação contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2018.

LE BRETON, D. Antropologia dos sentidos. Petrópolis: Vozes, 2016a.

LE BRETON, David. Aproximações em relação à marcha como prática de resistência. [Entrevista cedida a Silvia Lüdorf]. Bureau 5217, Faculté de Sciences Sociales, Université de Strasbourg, Estrasburgo, França, 4 maio, 2016b.

LE BRETON, David. A sociologia do corpo e a marcha. [Entrevista cedida a Silvia Lüdorf], Bureau 5217, Faculté de Sciences Sociales, Université de Strasbourg, Estrasburgo, França, 20 maio, 2016c.

LE BRETON, David. Interview David le Breton Version Intégrale. [Entrevista cedida a Laurent Espinosa]. Les interviews de Laurent en partenariat avec l’île de Tara en Eaunes. Publicado em 04 mar., 2015. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=CSVwXhFhQpo

LE BRETON, David. Conduites à risque: des jeux de mort au jeu de vivre, 3. ed., Paris: PUF/Quadrige, 2013.

LE BRETON, David. Marcher : éloge des chemins et de la lenteur. Paris: Métailié (Suites), 2012a.

LE BRETON, David. Sociologie du risque. Paris: PUF, collection « Que sais-je ? », 2012b.

LE BRETON, David. Antropologia do corpo e modernidade. Petrópolis: Vozes, 2011.

LE BRETON, David. As paixões ordinárias: antropologia das emoções. Petrópolis: Vozes, 2009.

LE BRETON, David. L’interactionnisme symbolique. 2. ed. corrigida. Paris: PUF, 2008.

LE BRETON, David. A sociologia do corpo. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2007.

LE BRETON, David. The anthropology of adolescent risk-taking behaviours, Body & Society, v. 10, p. 1-15, 2004a.

LE BRETON, David. Sinais de identidade: tatuagens, piercings e outras marcas corporais. Lisboa: Miosótis, 2004b.

LE BRETON, David. Activités physiques et sportives et intégration : aspects anthropologiques. Empan, v. 3, n. 51, p. 58-64, 2003.

LE BRETON, David. Éloge de la marche. Paris: Métailié (Suites), 2000.

LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1990.

LÉVY, Joseph. Entrétiens avec David Le Breton : déclinaisons du corps. Montreal-Paris: Tétraèdre, 2010.

LEWIS, Neil. The climbing body, nature and the experience of modernity. Body and Society, v. 6, n. 3-4, p. 58-80, 2000.

LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2004.

LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A estetização do mundo: viver na era do capitalismo artista. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A cultura-mundo: resposta a uma sociedade desorientada. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

MARAFA, Lawal M.; TING, Ho Yan; CHEONG, Chau Kwai. Perceived benefits of hiking as an outdoor recreation activity in Hong Kong. Licere, v. 10, n. 2, p. 1-26, 2007.

MARKULA, Pirkko. “Tuning into one’s self”: Foucault’s technologies of the self and mindful fitness. Sociology of Sport Journal, v. 21, p. 302-321, 2004.

MARKULA, Pirkko. The technologies of the self: sport, feminism and Foucault. Sociology of Sport Journal, v. 20, p. 87-107, 2003.

MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2003.

PALLARES-BURKE, Maria Lúcia G. As muitas faces da história: nove entrevistas. São Paulo: Editora Unesp, 2000.

PÁMPOLS, Carles F. La aventura imaginaria. Uma visión antropológica de las atividades físicas de aventura em la natureza. Apunts, Educación Física y Deportes, v. 41, p. 36-43, 1995.

PAVIE, Xavier. Le corps, matière d'exercices spirituels. Sociétés, v. 3, n. 125, p. 69-79, 2014.

RAUCH, André. La marche, la vie : solitaire ou solidaire, ce geste foundateur. Paris: Éditions Autrement, 1997.

SASSATELLI, Roberta. Healthy cities and instrumental leisure: the paradox of fitness gyms as urban phenomena. Modern Italy, v. 20, n. 3, p. 237-249, 2015.

SASSATELLI, Roberta. Interaction order and beyond: a field analysis of body culture within fitness gyms. In: FEATHERSTONE, Mike. Body modification. Londres: Sage, 2000. p. 227-248.

SCOTT, Susie. How to look good (nearly) naked: the performative regulation of the swimmer’s body. Body & Society, v. 16, n. 2, p. 143-168, 2010.

SENNET, Richard. Growth and failure: the new political economy and its culture. In: FEATHERSTONE, Mike; LASH, Scott. Spaces of culture: city, nation, world. Londres: Sage, 1999.

SHILLING, Chris. Sociology and the body: classical traditions and new agendas, The Sociological Review, v. 55, n. s1, p. 1-18, 2007.

STRAUSS, Anselm. L. Espelhos e máscaras: a busca da identidade. São Paulo: Edusp, 1999.

SVARSTAD, Hanne. Why hiking? Rationality and reflexivity within three categories of meaning construction. Journal of Leisure Research, v. 42, n. 1, p. 91-110, 2010.

WOLF, Isabelle D.; WOHLFART, Teresa. Walking, hiking and running in parks: a multidisciplinary assessment of health and well-being benefits. Landscape and Urban Planning, v. 130, p. 89-103, 2014.

WACQUANT Loïc. L’habitus comme objet et méthode d’investigation : retour sur la fabrique du boxeur. Actes de la Recherche en Sciences Sociales, v. 4, n. 184, p. 108-121, 2010.

WACQUANT, Loïc. Los tres cuerpos del boxeador profesional. Educación Física y Ciencia, v. 8, p. 11-35, 2006.

WACQUANT, Loïc. Corpo e alma: notas etnográficas de um aprendiz de boxe. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

WAINWRIGHT, Steven P.; TURNER, Bryan S. “Just crumbling to bits”? An exploration of the body, ageing, injury and career in classical ballet dancers. Sociology, v. 40, n. 2, p. 237-255, 2006.

ZARIAS, Alexandre; LE BRETON, David. Corpos, emoções e risco: vias de compreensão dos modos de ação individual e coletivo. Sociologias, v. 21, n. 52, p. 20-32, 2019.




DOI: https://doi.org/10.1590/15174522-101780

Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.