Da precariedade do acesso à saúde, das políticas públicas ineficazes e das técnicas clandestinas de modificação corporal utilizadas pelas travestis e mulheres trans

Juliana Luiza Mazaro, Valéria Silva Galdino Cardin

Resumo


As travestis e os transexuais se submetem a métodos e procedimentos clandestinos de modelagem, automedicação hormonal e  inoculação de silicone industrial líquido para adequarem seus corpos ao binarismo imposto pela heteronormatividade,  por não reconhecerem o gênero que foi imposto pelo seu sexo biológico ao nascer, alterando assim a sua imagem externa para o gênero que se sentem pertencidos. Esta prática clandestina é realizada pelas “bombadeiras”, que realizam os procedimentos sem o preparo profissional adequado e sem as condições mínimas de higiene. Estas pessoas aceitam e assumem os riscos do uso prolongado e excessivo dos hormônios femininos e da inserção em seu organismo de silicone líquido, em nome de seus objetivos, ou seja, de um corpo feminino. O Brasil tem a maioria de suas políticas públicas de saúde voltadas para os heterossexuais. Para a comunidade LGBT existem apenas alguns programas  de controle  de DST e da AIDS, e na última década alguns mais específicos, mas insuficientes quanto ao número de serviços e ao número de atendimentos. Para as travestis e mulheres trans só há o Processo Transexualizador do SUS.  Por fim, os transgêneros não possuem um acesso digno a saúde pública


Palavras-chave


Transgêneros; Precariedade da Sistema Público de Saúde; Políticas Públicas de Saúde Ineficazes; Direitos Fundamentais; Direitos Humanos; Direito Constitucional

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DOI: https://doi.org/10.22456/0104-6594.73403

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