NATUREZA, CIÊNCIA E PROGRESSO:
A NATUREZA BRASILEIRA NO DEBATE LETRADO DO IHGB (1839-1845)

Luis Fernando Tosta Barbato 1

 

Resumen: Em finais do século XVIII e início do século XIX, o Império Português passou por uma grave crise econômica, na qual o mundo natural, aliado ao seu conhecimento e à exploração racional de tudo o que ele poderia prover surgiu como uma alternativa a essa crise. Nesse trabalho, analisaremos como os intelectuais do IHGB - Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro - aproveitaram-se desse modelo de pensamento português e trabalharam a natureza brasileira de maneira que ela se apresentasse como uma grande aliada na complexa missão empreendida por esses homens de Letras e de Ciências do Brasil do XIX: inserir o país no rol das grandes nações do globo.

Palabras clave:Império Português; Natureza; Crise econômica.

 

 
A natureza sabia e provida concebeu a estes terrenos pouco capazes de criar as melhores proporções para a agricultura. Tudo isso quanto nelles se planta produz com fertilidade e abundancia; tem imensas matas, e nestas páos para a construção de casas e serrarias e taboados; produzem quazi todas as fructas da Europa, e isto sem arte, pois que as terras apenas são aradas com arádo de páu sem ferro, d´onde se colige qual seria sua a sua produção se fossem beneficiadas e preparadas como na Europa. 2.

Em finais do século XVIII, o Império colonial português passava por um período de reordenamento de suas estruturas políticas e econômicas, já que as minas brasileiras estavam em decadência e isso levara à diminuição da arrecadação do quinto pela Coroa portuguesa. Além disso, o contrabando do ouro era elevado e os produtos tropicais produzidos aqui já não conseguiam competir no mercado internacional frente aos seus concorrentes, e não raro perdiam espaço no próprio Brasil, devido à entrada de produtos melhores e mais baratos de outras potências coloniais. (DEAN, 1996, p.134-135).
Ou seja, a economia colonial era mal administrada pelos governantes portugueses, que subaproveitavam os recursos que a colônia podia oferecer. O historiador Warren Dean traz vários exemplos que atestam esse descaso lusitano em relação à colônia sul-america: 1) O Brasil importava potassa 3, recurso muito utilizado nas indústrias e facilmente extraída das cinzas da madeira. Com tanta madeira, disponível em toda a extensão territorial da colônia, não há indício de produção em larga escala desse produto; 2) os cortesãos recém chegados da Corte às terras brasileiras repudiavam o queijo e a manteiga aqui produzidos, preferindo comprar os produtos importados; 3) o Brasil embarcava para a Europa toras de pau-brasil in-natura ao invés de antes convertê-las em tintura, agregando assim valor ao produto. (DEAN, 1996, p.139).
Enquanto nas colônias portuguesas ocorriam casos como os descritos acima, que invariavelmente levavam à perda de divisas da Coroa, os franceses na Guiana, os holandeses em Java e os árabes em Zanzibar já conseguiam produzir especiarias por eles introduzidas e estavam obtendo lucros com isso. (DEAN, 1996, p.144). Portanto, estava claro que os portugueses precisavam seguir o exemplo desses povos e, de alguma forma, driblar a crise que já se instalara em seus domínios.
Sobre essa questão da má administração do império português nesse período, André Mansuy-Diniz Silva mostrou que, prisioneiro das cláusulas do Tratado de Methuen, de 1703, o império português abandonara pouco a pouco suas incipientes manufaturas em favor do retorno à viticultura e à exportação de vinho e azeite de oliva. Portugal se tornava cada vez mais dependente do mundo exterior, principalmente da Inglaterra, seu principal parceiro comercial e fornecedor de produtos manufaturados. Além disso, o ouro e os diamantes do Brasil foram utilizados em gastos ostentatórios e, sobretudo, para financiar de maneira fácil um déficit cada vez maior na balança de pagamentos, ao invés de serem revertidos em forma de investimentos em Portugal e suas colônias. (SILVA, 1996, p.495). Desta maneira, observamos a evidência da crise no sistema colonial português, e medidas eram necessárias para contorná-la.
Lembremos que, nesse período, finais do século XVIII, os estudos científicos se desenvolviam de uma maneira bastante rápida, como podemos atestar na frase abaixo, de autor desconhecido: “Em um século lançou-se mais luz sobre esta ciência [a biologia] que o que fora inferido no período precedente de cerca de 5.700 anos”. (apud THOMAS, 1988, p.106) 4.
E foi justamente nas ciências naturais que o rei de Portugal viu a saída para tal crise. Um marco nesse processo foi a contratação do italiano Domingos Vandelli, feita pelo marquês de Pombal durante a reforma da Universidade de Coimbra, que participou ativamente da fundação da Academia de Ciências de Lisboa, em 1779, fundamental para o desenvolvimento das ciências em Portugal. (SCHIAVINATTO, 2003, p.603).
Vandelli acreditava que através do estudo da história natural, o Estado português poderia utilizar a natureza para combater a decadência econômica motivada pela queda da mineração, falta de produção agrícola forte e abundante e a rediscussão do metalismo. Ou seja, a ciência podia ser uma excelente aliada da metrópole lusitana, necessitando apenas de investimentos para isso. Esses investimentos nas ciências naturais, orientados pelas Luzes, retornariam às mãos do governo na medida em que as riquezas fossem exploradas ou produzidas. (SCHIAVINATTO, 2003, p.608).
Nesse mesmo contexto, o naturalista Correia de Serra, fundador da Academia de Ciências de Lisboa, corrobora a opinião de Vandelli, como podemos observar abaixo:

 
O primeiro passo de uma nação, para aproveitar suas vantagens, é conhecer perfeitamente as terras que habita, o que em si encerram, o que de si produzem, o que são capazes. A História Natural é a única ciência que tais luzes pode dar; e sem um conhecimento sólido desta parte, tudo se ficará devendo aos acasos, que raras vezes bastam para fazer a fortuna e riqueza de um povo. (SERRA apud SCHIAVINATTO, 2003, p.608).

Assim, aos poucos nascia a noção difusa de que a natureza se tornava um patrimônio do lugar, e para que este fosse bem explorado, gerando assim riquezas, necessitava dos conhecimentos das ciências naturais.
Imbuído, então, desse espírito das Luzes, mesclado a uma noção mais pragmática de exploração econômica, o governo português, na passagem do século XVIII para o XIX, incentiva, através da Academia de Ciências de Lisboa, viagens filosóficas pelo Brasil, como a de Alexandre Ferreira (realizada entre 1783 e 1792). Assim, essas viagens tinham o objetivo de ampliar os conhecimentos sobre a história natural, além de descobrir recursos naturais e potencializar sua exploração. (NAXARA, 1999, p.107).
Nesse contexto, as viagens filosóficas desempenharam um papel importante no que se refere ao conhecimento da natureza brasileira, tanto que Vandelli escreveu uma dissertação em 1779 sobre o modo de se relatar esse tipo de viagem, destinada principalmente aos viajantes que percorriam o Império Português. Nessa obra, o naturalista italiano ensinava como escrever uma memória de maneira minuciosa, devendo o viajante nomear todas as suas atividades, seus percalços, seus contatos com as gentes e o estado de civilização em que se encontravam. Havia também uma grande preocupação com os aspectos operacionais da viagem, como estabelecer horários para levantar, horários para comer, critérios para a escolha dos auxiliares, entre outros. (SCHIAVINATTO, 2003, p.603). Vandelli enfatizava ainda a necessidade de catalogar a natureza nos moldes da história natural, calcada no sistema de classificação de Lineu. Assim, podemos notar que o naturalista italiano baseia-se na concepção baconiana do saber, segundo a qual a ciência progride multiplicando as observações exatas e acumulando os fatos particulares, e não por estéreis raciocínios abstratos. (NAXARA, 1999, p.106-107).
Assim, Schiavinatto (2003, p.604) diz que “a história natural tornava a natureza todo um domínio empírico cogniscível, descritível e ordenável em sua totalidade, retirando-a de uma noção caótica que a marcaria in-loco”.
Não que antes da fundação da Academia de Ciências de Lisboa e da publicação da obra de Vandelli, essas viagens através do Império português fossem raras. Engenheiros, militares e religiosos, entre outros, em meados do século XVIII, remetiam escritos ao Conselho Ultramarino caracterizando a natureza que encontravam nas colônias, descrevendo certo tipo de planta ou animal, ou ainda relatando a passagem de um cometa. No entanto, esses relatos não seguiam um método comum, sendo bastante heterogêneos entre si.
Foi justamente nesse ponto que a obra de Vandelli atuou, unida à Academia de Ciências de Lisboa e à já reformada Universidade de Coimbra, uma vez que instaurou um gênero correto de se escrever a viagem filosófica. Essas memórias de viagem tornaram-se, então, obras de letrados, que ganharam prestígio no Reino, e a natureza e seus elementos deixaram de ser inseridos num universo de seres estranhos e mitológicos, passando a ser observados com olhares racionais. (SCHIAVINATTO, 2003, p.607).
Portanto, notamos que o avanço das ciências naturais muito influenciou o governo português, tanto que este incentivou seu desenvolvimento e buscou formas de atrelá-lo à sua economia. Neste sentido, as terras tupiniquins seriam visitadas por uma turba de naturalistas que, munidos do manual de viagem de Vandelli, percorreriam os quatro cantos do império lusitano em busca de conhecimentos que contribuíssem para o progresso das ciências naturais, indo ainda ao encontro das riquezas que estavam ocultas na matas, montanhas, rios e etc.
Mas não foi isso o que de fato aconteceu, já que o governo português não confiava muito nos homens de ciências que cada vez mais proliferavam no Reino. E isso devido às concepções políticas da maioria deles, muito ligados aos ideais do Iluminismo francês e, por este motivo, considerados subversivos em relação à política imperial lusitana. É inegável que esses homens da ciência trocavam correspondência com seus colegas franceses, visto que a França era o lócus da maioria das inovações e recursos para esse campo de estudos.
A Corte portuguesa abominava os franceses, primeiro por serem aliados dos seus inimigos espanhóis, e depois por disseminarem panfletos anticolonialistas e igualitaristas pelo mundo, o que ia contra os interesses de uma metrópole, como era o caso de Portugal.
Vale lembrar que a Inconfidência Mineira, de 1789, teve papel fundamental para corroborar essa visão negativa dos cientistas segundo a visão do governo português. Entre os revolucionários capturados, havia dois membros da Academia de Ciências de Lisboa. (DEAN, 1996, p.136-137).
Portanto, o governo português usava com muita cautela os serviços dos naturalistas, atitude que gerou um grande desperdício de talentos, já que muitos cientistas capacitados foram descartados por causa de suas opiniões políticas.  Podemos tomar o Brasil como exemplo desse temor (DEAN, 1996, p.137-140), tanto que até a mudança da Família Real para o Rio de Janeiro, em 1808, tivemos aqui um desenvolvimento científico próximo ao irrisório, e Warren Dean dá alguns motivos que explicam isso.
Segundo este autor, um exemplo teria sido a proibição da abertura de instituições ligadas ao desenvolvimento científico pela Coroa Portuguesa, como é o caso de gráficas, hortos, bibliotecas públicas, entre outras 5, e de ensino superior no Brasil, com exceção dos seminários. Isso visando proteger os colonos brasileiros das supostas ideias subversivas que acompanhariam os cientistas que compunham essas instituições.
Além dessas proibições que dificultavam o desenvolvimento científico da colônia, Dean ressalta a falta de continuidade administrativa existente no Brasil do período, o que impedia o andamento de projetos relacionados ao desenvolvimento das ciências ao longo dos governos. Como é o caso do empreendimento do Marquês do Lavradio, que promoveu a diversificação agrícola e a busca de plantas nativas úteis, mas quando voltou a Portugal, em 1779, levou consigo seu grupo de cientistas amadores, trazendo o fim ao seu projeto. Seu sucessor, o Vice-Rei Luiz de Vasconcellos e Souza também deu início a obras de avanço científico na colônia, como foi o caso da criação de um museu de história natural no Rio de Janeiro, empresa que também chegou ao fim quando ele foi substituído em 1790. (DEAN, 1996, p.136).
Havia ainda as restrições à entrada de estrangeiros no Brasil, que só foram retiradas em 1808, o que dificultava o afluxo à colônia de inovações científicas produzidas na Europa. O maior exemplo dessa postura da Coroa foi a proibição da entrada do famoso naturalista alemão Alexander von Humboldt no Brasil, em 1800, acusado de ser um espião em busca das riquezas brasileiras.
É importante ressaltar que em períodos mais remotos da história colonial brasileira, ocorreram certos avanços científicos, mas esses foram muito pontuais e pouco duradouros, como foi o caso dos cientistas que acompanharam Nassau em sua empreitada no Brasil. Da comitiva holandesa participaram Willen Piso, médico que realizou os primeiros estudos de medicina tropical, e Georg Marcgrave, astrônomo, cartógrafo e matemático, que trouxe consigo um observatório astronômico completo e realizou as primeiras medições científicas do clima brasileiro. (SANT´ANNA NETO, 1999, p.24).
Outro exemplo de avanço científico no Brasil, antes da chegada da Família Real portuguesa, foi a chamada Flora Fluminense, aclamada obra de botânica do Frei José da Conceição Velloso, que reunia mais de 1640 espécies de plantas, todas classificadas segundo o sistema de Lineu.
Vale ressaltar que Frei Velloso foi objeto de vários elogios dentro do IHGB, primeiro por ser representante da ciência e da Ilustração no Brasil, e depois por traduzir textos considerados de suma importância para o desenvolvimento da agricultura e das ciências naturais no país 6.
Portanto, como já foi expressado, as ciências naturais só começaram a se desenvolver aqui de maneira efetiva a partir do ano de 1808, já que o Brasil passou de colônia à nova sede do Império português, e como aquele interesse de utilizar a natureza como fonte de riquezas ainda estava nos planos do governo, muitos investimentos na área científica se voltaram para esse lado do Atlântico.
Vale lembrar que, nesse momento, fins do século XVIII e início do XIX, se formara um cenário ideal no mundo para os portugueses aumentarem suas exportações, visto que seus concorrentes do Caribe encontravam-se arruinados por uma série de guerras e revoluções que se abateram sobre eles, como foi o caso da Guerra de Independência dos Estados Unidos (1776), da Revolução Francesa (1789), Revolução Haitiana (1791) e, finalmente, o imperialismo napoleônico, que, em 1801, deslocou uma enorme força expedicionária para essa área, a fim de debelar a Revolução de São Domingo, praticamente extinguindo o comércio da região. (DEAN, 1996, p.138).
Assim, ao chegar ao Brasil, a Coroa não hesitou em instalar poderosos instrumentos de investigação do mundo natural: uma gráfica, uma biblioteca, uma escola de medicina, um laboratório de análises químicas, uma cátedra de ensino agrícola (essa em Salvador), e uma academia militar, cujas funções incluíam engenharia civil e mineração, tudo isso na nova sede do império.
Além disso, os viajantes estrangeiros, outrora proibidos de adentrar no Brasil, passaram a ser incentivados a visitar nossas terras. Isso porque o governo tinha grandes interesses nos conhecimentos técnicos deles e nos lucros que eles poderiam gerar para o império. Podemos citar como exemplo dessa mudança em relação à entrada de estrangeiros no Brasil a vinda do renomado geólogo Barão Eschwege, contratado para realizar um estudo científico do potencial mineralógico da nova sede do Império Português. (DEAN, 1996, p.140-141).
Esses viajantes que aqui chegaram com interesses bastante diversos entre si – como, por exemplo, abrir casas comercias, fazer negócios, explorar riquezas, tentar fundar colônias, ou simplesmente descrever o país – acabaram por construir uma ampla e variada interpretação do Brasil, e seus relatos viriam a ser uma das principais fontes para a construção da memória nacional em um momento posterior 7.
As ciências naturais ganharam um status até então nunca atingido no Brasil que, nesse momento, já contava com uma camada de burocratas e letrados. Esta camada era composta tanto por portugueses como por brasileiros, em geral formados em Coimbra, e que ajudavam no governo do império transoceânico lusitano, mapeando e localizando problemas e apontando meios para resolvê-los. (SCHIAVINATTO, 2003, p.617-627).
Prova dessa importância da natureza no seio do império português, que refletia um comportamento geral das potências coloniais, foi a incorporação da botânica como patrimônio nacional 8, o que, no início do século XIX, levou a ações de cunho bélico entre os países.
Nesse período, as espécies economicamente rentáveis tornaram-se espólio de guerra, atingindo um status jamais alcançado antes. Um exemplo disso foi o saque praticado pelas tropas napoleônicas durante a invasão de Portugal, em fins de 1807. Nesse conflito, o naturalista Auguste de Saint-Hilaire, levou de Lisboa a coleção amazônica de Alexandre Ferreira, junto com inúmeras espécies coletadas por Vandelli e seus alunos.
Os portugueses retaliaram a atitude francesa durante a invasão da Guiana Francesa, entre 1809 e 1917, onde o exército luso-brasileiro se apoderou e transferiu para os domínios portugueses inúmeras espécies, algumas de grande valor econômico como é o caso da noz moscada, do cravo e da canela.
Esses conflitos envolvendo gêneros naturais também geraram casos do que hoje se aproximam do que chamamos de biopirataria, como é o exemplo do oficial português Luiz d´Abreu, que foi feito prisioneiro na possessão francesa das Ilhas Maurício, e que ao conseguir fugir, roubou do jardim botânico local – um dos mais importantes do mundo no que se referia ao estudo das espécies tropicais – inúmeras sementes que foram entregues ao Rei Dom João VI, entre elas a da famosa Palmeira Imperial, um dos símbolos maiores do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. (DEAN, 1996, p.142-143).
Os intelectuais do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro escreveram em um contexto – 1839-1845, recorte temporal do trabalho – no qual as ciências naturais já haviam alcançado status científico bastante avançado e já haviam promovido grandes passos no que se refere ao seu desenvolvimento no Brasil e também em que a natureza se tornara um patrimônio econômico e estava em vias de se tornar também parte da formação identitária nacional.
Vale aqui justificar o recorte temporal utilizado para a pesquisa – as revistas publicadas no período compreendido entre os anos de 1839, data da publicação do primeiro exemplar da revista , e 1845 – foi baseado na gestão do cônego Januário da Cunha Barbosa como primeiro-secretário do instituto, homem que, junto com o marechal Raymundo José da Cunha Mattos, foi o grande idealizador da criação do grêmio. Poeta, orador sacro e biografista, Barbosa foi também o fundador da Revista do instituto, organizou seu primeiro regimento, além de buscar torná-lo conhecido entre seus pares no exterior. Ou seja, foi um dos principais responsáveis pelas características que o IHGB e sua produção viriam a ter durante toda sua fase sob o regime monárquico brasileiro.
Deste modo, podemos perceber que a relação natureza-progresso, ainda estava bastante forte nesse momento. No entanto, se antes era Portugal quem comandava esse progresso ao atrair cientistas, ao construir instituições científicas ou ao explorar áreas em buscas de novas espécies rentáveis, agora cabia ao Brasil, recém independente e livre de sua metrópole, comandar tais empreendimentos, e notamos que isso é um dos principais desafios desses intelectuais comprometidos com a nação.
O primeiro esforço dos intelectuais do IHGB foi mostrar que o Brasil possuía condições de manter o avanço científico em seu país sem o apoio de Portugal, ou seja, provar que ele já tinha condições para ser realmente independente. Nesse sentido, encontramos um bom número de publicações na revista do Instituto que visavam mostrar o desenvolvimento das ciências brasileiras, tanto na época anterior ao estabelecimento da Família Real na colônia, quanto no período pós-independência, com o claro objetivo de revelar o potencial brasileiro nessa área.
Como já foi ressaltado, a obra de Fr. Velloso nesse sentido é exaltada nas publicações do IHGB no período, primeiro por seu grande valor científico, afinal, foram cerca de 25 anos de estudos no qual o religioso catalogou em torno de 1.600 espécies de plantas brasileiras de acordo com o sistema de Lineu, o que mostrava que ele andava conectado com as tendências acadêmicas de seu tempo.
Mas, além desse inegável valor científico, a Flora Fluminense havia sido terminada em fins do século XVIII, ou seja, ela era um claro exemplo da vocação brasileira para as ciências, pois havia sido produzida por um brasileiro, sem o apoio de Portugal, em um momento em que havia pouquíssimos incentivos nessa área por aqui. Portanto, notamos que o IHGB tomou essa obra como uma clara mostra do potencial científico brasileiro, e a usou como exemplo que exalta a nação.
Mas não foi só na obra de Velloso que o IHGB concentrou seus esforços para valorizar as ciências no Brasil. Há vários exemplos de artigos que de maneira mais direta, ou, na maioria dos casos, mais sutil, mostra o grande desejo desses intelectuais em mostrar que o Brasil estava ligado ao mundo ilustrado europeu, e que aqui também havia desenvolvimento científico.
Na maior parte dos relatos de viagens encontrados nas revistas do Instituto, observamos uma forte ligação com o método científico 9, principalmente no que se refere à cartografia. A exatidão geográfica é cultuada no IHGB, e quaisquer erros eram considerados inadmissíveis. Um exemplo aconteceu na avaliação de dois mapas da Província de São Paulo oferecidos à instituição, na qual os avaliadores deram o seguinte parecer:

 
Segundo a planta, a Provincia está situada entre os 20°30´ e 28° ou 29° de latitude Sul. Este modo de expressar-se do seu auctor não é admissível em sciencias exactas [...] a latitude dos diversos pontos do Globo é uma só. 10.

Além desse interesse em mostrar que no Brasil também havia desenvolvimento científico, havia ainda o intuito em revelar que o país deveria ser objeto de interesse dos homens da ciência, já que de sua natureza única e exuberante poderiam sair novas elucidações sobre os mais diversos ramos dos estudos naturais, e os dizeres do Visconde de São Leopoldo não negam a intenção do Instituto: “Tudo enfim pressagia que o Brazil é destinado a ser, não acidentalmente, mas, de necessidade, um centro de luzes e civilização, e o arbitro da política do Novo Mundo” 11.
O que corrobora os dizeres de Manoel Guimarães que afirma ser um dos projetos subjacentes 12 dos idealizadores do IHGB transformarem o Brasil em uma base avançada da civilização francesa – tido como o centro das luzes e civilização em um âmbito mundial – nos trópicos. (GUIMARÃES, 1988, p.13).
A publicação de um artigo do dinamarquês Dr. Lund, naturalista e sócio honorário do IHGB, retrata bem esse propósito. Nesse artigo, o autor relata a descoberta de cerca de 115 espécies de mamífero, além de encontrar ossadas humanas, ao visitar cerca de 200 cavernas pelo interior do Brasil, evidenciando assim a importância do país no que se refere aos estudos de geologia, paleontologia, antropologia, entre outros 13.
Transformar o Brasil no centro irradiador das Luzes na América era o objetivo desses intelectuais e, por isso, a exaltação e a divulgação das ciências e da natureza brasileiras tornavam-se elementos de destaque na conformação da revista do IHGB. Podemos ainda observar que nos artigos publicados nas revistas do Instituto, o lado pragmático das ciências e da natureza eram bastante valorizados, de maneira que encontramos muitos artigos que visam ressaltar as riquezas do mundo natural brasileiro e identificar os métodos de otimizar sua utilização, de modo a gerar riquezas dentro do país.
A partir dessa prática de utilização dos recursos naturais de forma orientada a produzir benefícios para o país, notamos que o ideário Iluminista ainda estava bem vivo dentro do IHGB, pois como ressaltou Lorelai Kury:

 
[...] o Iluminismo não foi apenas um movimento no campo das idéias e da filosofia, mas um conjunto de transformações na esfera das sociabilidades e da circulação de textos impressos, bem como uma reunião de práticas administrativas, executadas em geral pelo Estado e visando racionalizar o funcionamento da sociedade, conhecer e controlar as populações, a produção, os fluxos e os usos das mercadorias. (KURY, 2004, p.110).

Nesse sentido, percebemos a continuidade do ideal do governo português dos finais do século XVIII e início do XIX, já que esses intelectuais também viam nos recursos naturais formas de crescimento econômico para o país. No entanto, esses continuavam sendo subutilizados, e é justamente nesse ponto que toca à otimização da exploração das riquezas advindas da natureza que o IHGB foca grande parte de seus artigos 14. Afinal, o Instituto nasceu a partir da SAIN 15, uma instituição criada para incentivar o progresso e o desenvolvimento brasileiro, e foi justamente esse desejo que observamos nos artigos que compõem suas revistas.
Se observarmos o discurso de inauguração do IHGB, de autoria do Cônego Januário Barbosa, podemos perceber que a imagem negativa da natureza brasileira, corrente no século anterior 16, já havia sido superada e, em seu lugar, instalara-se uma visão bastante positiva e animadora dessa natureza.
Essa visão aparece nos relatos de maneira geral, e há vários exemplos de artigos que afirmam a fertilidade do solo brasileiro, a beleza de suas matas, a abundância de animais, o que possibilita caça e pesca fartas, a presença de ricas minas, entre outras formas de exaltação. E para aproveitar esses recursos diversas soluções são apresentadas nesses artigos 17.
Nesse sentido, os rios ocupam um papel de destaque no IHGB, estando presentes como tema em diversos artigos que visam o desenvolvimento econômico do país 18. Isso porque eles eram considerados as mais importantes vias de integração do território nacional, e também pela sua importância para o povoamento e comércio interno brasileiro.
Não faltam exemplos de artigos que enfatizam a necessidade e a importância dos rios brasileiros. Em um artigo de 1810, publicado pelo IHGB, o autor faz uma série de comparações técnicas e prova que o comércio realizado através das vias fluviais é muito mais vantajoso que o feito pelas vias terrestres – uma canoa é mais barata e transporta mais produtos que uma mula, segundo seus estudos. Nesse mesmo artigo, o autor ressalta que não aproveitar de maneira correta os rios acarretaria um grande desperdício do potencial brasileiro, já que a navegação faria prosperar a agricultura, a mineração, a povoação e a extinção do gentio no interior do país, além de ser o meio de comunicação entre as vilas brasileiras, e entre estas e outros países 19.
Há ainda a publicação de uma Carta Régia, de 1798, endereçada ao governador do Pará, que corrobora a importância dos rios para o progresso da nação. Nesse documento, o Rei dá instruções para que seja estabelecida uma linha regular de comércio e comunicação entre as províncias do Pará e do Mato Grosso, e para que dê certo, instrui o estabelecimento de aldeias e povoações ao longo dos rios Madeira e Amazonas, que são as principais ligações entre as duas províncias. O Rei ainda enfatiza o povoamento das cachoeiras, para que sua população ajude os comerciantes e viajantes a trespassá-las, evidenciando assim a importância dos rios para o avanço da nação 20.
O litoral brasileiro também serve como meio de integração e de desenvolvimento do país, assumindo as mesmas funções dos rios, mas em uma escala bem menor, visto a quantidade de artigos destinados a esse tema. Nessa pesquisa, nos deparamos somente com um artigo do Marquês de Lavradio, que traz uma extensa descrição da costa brasileira, focando principalmente nos seus portos. No artigo fica claro o propósito de promover o comércio interno brasileiro, visto os dados que traz, como a profundidade das águas dos portos, tamanho de navios que estes comportam, entre outros 21.
Esse pouco enfoque no litoral brasileiro pode ser explicado pelo fato de o Brasil já apresentar um certo desenvolvimento, principalmente econômico, nessa região, e por isso, os intelectuais concentravam sua atenção nas regiões que precisavam ser “civilizadas” – e ocupadas –, como era o caso do interior. Por isso, os rios, e não o mar, foram tomados como objeto principal de estudo 22.
Nesse sentido, encontramos vários artigos publicados nessas revistas, com indicações de navegação através de diversos rios, uma clara amostra do intuito do IHGB de estimular o transporte fluvial dentro do Brasil, e por consequência, o progresso que ele poderia trazer. Assim, os rios se tornam um exemplo prático de como a natureza poderia contribuir para o desenvolvimento da nação, pois eles eram os elementos de ligação, tanto cultural como econômica do extenso território nacional.
Os rios são considerados também importantes dentro das publicações do IHGB por serem os caminhos que conduzem às minas, outro elemento da natureza muito presente nos artigos. Estas aparecem sempre associadas à riqueza e, através dos relatos, observamos que, mesmo passado quase um século do auge da mineração no Brasil, as minas ainda despertavam muitos anseios nos brasileiros.
Nesse sentido, as minas aparecem, juntamente com os rios, como grandes aliadas no povoamento do Brasil, já que levavam milhares de homens a se aventurarem pelos “incultos sertões” no interior do país. Em muitos relatos, observamos que grande parte das notícias sobre a ocorrência de metais preciosos era falsa, mas mesmo assim, motivou a colonização de territórios, como foi o caso da colônia de Guarapuava 23, que foi colonizada graças às notícias de minas na região. Embora tais notícias não fossem verdadeiras, o desalento das minas não significou um fracasso, uma vez que a fertilidade do solo, a abundância de pastagens e caça, e os numerosos rios que ligavam a região a outras serviram para fixar os colonos à região 24.
Ou seja, as minas serviam como chamariz para as pessoas ocuparem o interior do Brasil, e caso elas não rendessem o esperado, a fertilidade das terras e a abundância de víveres que a natureza oferecia a essas pessoas seria o suficiente para mantê-las nesses “sertões”.
Além desse papel importantíssimo que as minas representaram nesse período, no que diz respeito ao conhecimento e povoamento do interior do Brasil, elas também aparecem como incentivadoras do comércio interno e da circulação de mercadorias, já que as regiões auríferas importavam a maior parte dos gêneros de que necessitava sua população 25.
De maneira geral, percebemos existir no IHGB a noção de que a natureza brasileira tratava-se de um verdadeiro e grandioso patrimônio nacional, que bem aproveitado poderia render muitos avanços ao país. O Brasil tinha grandes rios, que além de proverem água e alimento à população, eram ótimos para a navegação, e também para a ligação entre as mais distantes porções do vasto território.
Além dos rios, ainda havia minas intocadas no interior, que poderiam dar ao país lucros rápidos, e além de tudo isso, a própria terra era muito fértil, e nela cresciam um sem número de animais e plantas, que permitiam ao homem viver sem muito precisar se preocupar nos dias que estavam por vir. E é justamente nesse ponto que encontramos uma outra situação nos debates do período.
Justamente por ser grandiosa demais, como frisamos no parágrafo anterior, a natureza brasileira despertava certo temor nesses intelectuais preocupados com o desenvolvimento do país. Havia a preocupação de que, diante da suntuosidade e poderio da natureza brasílica, o homem acabasse subjugado pelo ambiente no momento em que tentasse dele tirar proveito. Ou seja, esse cenário natural maravilhoso do Brasil, precisava ser domado e submetido ao controle dos homens, para poder assim oferecer vantagens ao desenvolvimento do país. (NAXARA, 1999, p.53).
Portanto, encontramos no IHGB uma visão ambígua em relação à natureza brasileira, apesar de a visão positiva sobrepujar-se em relação à negativa. Isso se mostra na quantidade de artigos que focam nos benefícios que o meio ambiente brasileiro poderia dar ao Brasil, bastante expressiva, enquanto que os que passam essa ideia do perigo que ele pode representar, se mal usufruído, são poucos, mas não deixam de ser relevantes.
Exemplo disso é o artigo que retrata a vida nas regiões auríferas de Minas Gerais, mostrando um estado de total decadência de sua população, marcado pela criminalidade, pela luxúria, entre outros exemplos de corrupção 26. Trata-se de um claro exemplo no qual a opulência da natureza – aqui representada pelas minas –, com toda a riqueza que proporcionou, ao invés do progresso, levou a população ao estado oposto.
Segundo Márcia Naxara (1999, p.8), no decorrer do século XIX, a natureza foi retratada de diferentes maneiras, ora como elemento de orgulho brasileiro, ocupando um lugar de prestígio no discurso em relação ao Brasil, ora como componente trágico da realidade nacional, na qual a população parece se perder em meio à sua grandiosidade.
A gravura Floresta Virgem do Brasil, de 1816, de autoria do viajante francês Conde de Clarac, retrata bem essa relação natureza grandiosa – homem diminuto da época 27:

ima

Figura 1

Segundo Arruda (2000, p.72), a imagem é excelente para retratar o problema, pois apesar de os homens estarem representados de maneira natural e à vontade em meio à natureza, é notável na imagem a desproporção entre eles e o meio, ressaltando assim a insignificância daqueles perante um ambiente natural tão exuberante quanto era o brasileiro. Para Márcia Naxara (1999, p.53), toda essa exuberância serviu para alimentar a ideia de temor do desconhecido e de falta de controle – incluí-se aí os índios – do homem sobre a natureza brasileira.
Arruda trás uma conclusão interessante sobre essa questão. Pois nesse período referente a meados do século XIX, a natureza - mais especificamente, os recursos que ela gerava - por si só não representava algo bom ou ruim para a sociedade, mas era o trabalho realizado sobre ela que levaria ao progresso. Portanto, ciência, trabalho, mais os recursos naturais seriam os elementos necessários para desenvolver o Brasil. (ARRUDA, 2000, p.80).
Os dizeres de Arruda ajudam-nos também a concluir essa questão no IHGB, pois observamos que os intelectuais do grêmio também partilhavam dessa noção, na qual as riquezas naturais só são elementos do progresso quando atreladas a ações humanas, no caso o trabalho e a ciência. Por isso, não faltam sugestões para a construção de portos, para a redução do índio, desenvolvimento da agricultura, estabelecimento de rotas fluviais, localização de minas etc...
Portanto, observamos aqui a busca desses intelectuais comprometidos com o futuro da nação em utilizar a natureza grandiosa do Brasil de maneira correta, à custa de muito esforço, pois só assim o desenvolvimento viria. Ou seja, era necessário conhecê-la para que ela se tornasse uma importante aliada do progresso no país, tanto civilizacional, quanto econômico.

 

Artigo recebido em 03/03/2009. Aprovado em 17/07/2009.

 

Nature, Science and Progress: the brazilian nature in the IHGB literate debate (1839-1845).

Abstract: At the end of the eighteenth century and beginning of the nineteenth century, the Portuguese Empire went through a serious economic crisis, in which the natural world, coupled with its knowledge  and  the rational exploitation of all it could provide, emerged as an alternative to this crisis.  In the present work, we analyze how the IHGB intellectuals took advantage of this portuguese thinking to use  the brazilian nature in a way that it could be a great ally in the complex task undertaken by these intellectuals: to place Brazil among the greatest nations of the world.

Keywords: Portuguese Empire. Nature. Economic crisis.

 

1 Mestrando em História pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, bolsista da FAPESP. E-mail: lfbarbato@gmail.com.

2 SILVA, Thomaz da Costa Corrêa Rebello. “Memoria sobre a provincia de Missões”. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo 2, 1840, p. 156.

3 Certo derivado do potássio muito usado nas indústrias de vidro, sabão e cerâmica.

4 Além dos trabalho de Keith Thomas, sobre esse assunto cf. NAXARA, 1999.

5 Com exceção dos jardins botânicos, que em 1796 tiveram seu primeiro exemplar construído em Belém, para servir de modelo a todos os demais da colônia, visando o aproveitamento econômico de espécies tropicais.

6 Cf. SÃO LEOPOLDO, Visconde de. Programa Histórico: O Instituto Historico e Geographico Brazileiro é o representante das idéias de illustração, que em diferentes épocas se manifestaram em o nosso continente. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo 1, 1839. p. 67; LAGOS, Manoel Ferreira. Elogio Historico do Padre Mestre Fr. Jozé Marianno da Conceição Velloso. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo 2, 1840. p. 40-58.

7 Os viajantes configuram um capítulo muito importante na História do Brasil e certamente proporcionaram e ainda proporcionam belos estudos. No entanto, nesse trabalho apenas pontuei sua participação no que se refere ao Brasil do século XIX e sua natureza, já que não tenho o tempo e o espaço que tal tema demanda. Sobre o tema, conferir: BELLUZZO, 1994; LISBOA, 1997; KURY, 2001.

8 O que explica a proibição da entrada de Alexander Von Humboldt no Brasil em 1800.

9 Lembremos que esses intelectuais escreveram em uma época na qual a História se firmava como ciência, e tinha no empirismo e no rigor documental uma de suas bases.

10 REBELLO, José Silvestre; REBELLO, Lino Antonio. Parecer da Commissão de Geographia sobre dous mappas offerecidos ao Instituto. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Tomo 2, 1840. p. 113.

11 SÃO LEOPOLDO, Visconde de. Programa Histórico: O Instituto Historico e Geographico Brazileiro é o representante das idéias de illustração, que em diferentes épocas se manifestaram em o nosso continente. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo 1, 1839. p.62.

12 Projeto incentivado a partir da intensa relação entre o IHGB e o Institut Historique de Paris, durante os primeiros anos do grêmio brasileiro. Cf. GUIMARÃES, 1988, p.12-13.

13 LUND, Peter Wilhelm. Carta escripta da Lagôa Santa (Minas Geraes), ao Sr. Primeiro Secretario do Instituto. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Tomo 4, 1842. p. 80-81.

14 Vidal e Souza (1997, p.22-38) aponta como característica própria desses intelectuais a preocupação com o futuro de sua pátria, o que torna comum, além de exaltar as belezas e virtudes do país, também mostrar seus problemas e propor meios para solucioná-los.

15 Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, entidade que tinha por objetivo promover o desenvolvimento da agricultura e pecuária no país, e que, segundo Schwarcz, fazia parte de conjunto de medidas criadas na época que visava a centralização do Estado. Cf. SCHWARCZ, 1993, p.101.

16 Sobre esse assunto conferir: GERBI, 1996; VENTURA, 1991; SCHIAVINATTO, 2003.

17 Exemplo maior disso são os dizeres de Barbosa, atestando que o Brasil continuava subexplorando seus recursos naturais por causa da ignorância dos proprietários e administradores das fazendas brasileiras: “Raro é a fazenda entre nós, cujo feitor sabe mais que ler [...] nos outros paizes entre tropicais é hoje raro o administrador que não tem algumas idéias das ciências naturaes, principalmente Botanica e Chimica.” BARBOZA, Januario da Cunha. Programa: Se a introdução dos escravos africanos no Brazil embaraça a civilização dos nossos indígenas. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Tomo 1, 1839. p. 132.

18 É importante que frisemos que apesar de percebermos nos escritos publicados pelo IHGB a intenção de promover o desenvolvimento econômico do país, aqueles intelectuais oitocentistas pensavam em termos de progresso e civilização, termos ligados ao ideal Iluminista, e não estritamente à questão econômica.

19 TOVAR, Manoel de Albuquerque. Informação de Manoel de Albuquerque Tovar sobre a navegação importantissima do Rio Doce. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Tomo 1, 1839. p. 134-139.

20 Carta Regia. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Tomo 4, 1842. p. 232-233.

21 LAVRADIO, Marquês de. Relatório do Marquez de Lavradio, vice-Rei do Rio de Janeiro, entregando o governo a Luiz de Vasconcelos e Souza, que o sucedeu no Vice-Reinado. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Tomo 4, 1842. p. 410.

22 Autores como Gilmar Arruda, Nísia Trindade de Lima e Candice Vidal e Souza, tratam dessa oposição interior (também chamado de sertão) versus Litoral, sendo o primeiro representado como selvagem, bárbaro, em contraposição ao segundo, representado como civilizado.

23 Região que atualmente corresponde ao centro do Estado do Paraná.

24 LIMA, Pe. Francisco de Chagas. Memória sobre o descobrimento e colônia de Guarapuava. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Tomo 4, 1842. p. 47.

25 CASTRO, Martinho de Mello e. Instrução para o Visconde de Barbacena Luiz Antonio Furtado de Mendonça, Governador e Capitão Geral da Provincia de Minas Geraes. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Tomo6, 1844. p. 3.

26 FONSECA, Pe. Manoel da. Levantamento em Minas Geraes no ano de 1708. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Tomo 3, 1841. p. 262.

27 Imagem retirada do site: http://www.moderna.com.br/moderna/didaticos/em/literatura/litbrasil/obra/lp_13_1.pdf. Acesso em: 23 jul. 2009.

 

Referências:

 

ARRUDA, Gilmar. Cidades e sertões. Entre a história e a memória. Bauru: EDUSC, 2000.

BELLUZZO, Ana Maria. O Brasil dos Viajantes. São Paulo: Fundação E. Odebrecht, 1994.

DEAN, Warren. A Ferro e Fogo. A História e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Cia. Das Letras, 1996.

GERBI, Antonello. O Novo Mundo – História de uma polêmica 1750 -1900. São Paulo: Cia das Letras, 1996.

GUIMARÃES, Manoel Luís Salgado. Nação e civilização nos trópicos: o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o projeto de uma história nacional. Estudos históricos, n. 1, 1988.

KURY, Lorelai. Homens de ciência no Brasil: impérios coloniais e circulação de informações (1780-1810). História, Ciências, Saúde. Manguinhos, v. 11 (supplement 1): 109-29, 2004.

______. Viajantes-naturalistas no Brasil oitocentista: experiência, relato e imagem. História, Ciência, Saúde. Manguinhos. v. VIII (suplemento), 2001.

LISBOA, Karen. A Nova Atlântida de Spix e Martius. Natureza e civilização na viagem pelo Brasil (1817 – 1820). São Paulo: HUCITEC, 1997.

NAXARA, Márcia Regina Capelari. Sobre o Campo e a Cidade - olhar, sensibilidade e imaginário. Em busca de um sentido explicativo para o Brasil no século XIX. Campinas: [s.n.], 1999.

SANT´ANNA NETO, João Lima. História da climatologia no Brasil: Gênese e Paradigmas do clima como fenômeno geográfico. Cadernos Geográficos - Universidade Federal de Santa Catarina. n. 1. Florianópolis: Imprensa Universitária, 1999.

SCHIAVINATTO, Iara Lis. Imagens do Brasil: Entre a natureza e a História. In: JANCSÓ, Istvan. Brasil: Formação do Estado e da Nação. São Paulo: HUCITEC; Ed. Unijuí: Fapesp, 2003.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças. Cientistas, instituições e questão racial no Brasil (1870-1930).São Paulo: Cia. Das Letras, 1993.

SILVA, Andrée Mansuy-Diniz. Portugal e o Brasil: a reorganização do Império, 1750-1808. In: BETHEL, L. (Org.). História da América Latina – América Latina Colonial. São Paulo/Brasília: Edusp/Funag, 1996. v. I.

THOMAS, Keith. O Homem e o Mundo Natural. Mudanças de atitudes em relação às plantas e aos animais (1500-1800). São Paulo: Cia. Das Letras, 1988.

VENTURA, Roberto. Estilo Tropical. História Cultural e Polêmicas literárias no Brasil 1870 – 1914. São Paulo: Cia. Das Letras, 1991.

VIDAL e SOUZA, Candice. A Pátria Geográfica. Sertão e Litoral no pensamento social brasileiro.Goiânia: Editora da UFG, 1997.