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AS ARTES DA CENA FACE AOS CONSERVADORISMOS

 

CHAMADA DE ARTIGOS

A Revista Brasileira de Estudos da Presença [Brazilian Journal on Presence Studies], periódico eletrônico de acesso livre e revisão por pares, sem taxas de submissão ou publicação, receberá até 31 de julho de 2018 artigos inéditos dentro do escopo do tema geral AS ARTES DA CENA FACE AOS CONSERVADORISMOS.

O conservadorismo político clássico, como reação à Revolução Francesa – e tal como formulado por Edmund Burke, entre outros –, se opunha ao liberalismo e a sua ideologia de progresso em nome da tradição. Naquele momento, isso não significava apenas alguma coisa “a conservar”, mas ali se impunha o fundamento vital de uma sociedade.

O conservadorismo atual, que é preciso distinguir das ideologias simplesmente reacionárias, não se define como oposição ao progressismo, tampouco ao próprio liberalismo. Trata-se, antes, de um movimento que se opõe a dimensões utópicas contidas na e orientadas pela égide da mudança. Ao considerar que é menos o passado que se deve conservar do que uma certa visão do presente, o conservadorismo contemporâneo coloca em xeque a dimensão utópica – própria, por exemplo, da criação artística desde o início do século XX. Aqui, a invenção do novo, como prefiguração de um futuro, se define na descontinuidade radical em relação ao passado. Esse elemento foi, inclusive, a base das vanguardas.

Assim, estamos frente a um paradoxo: como reinventar uma arte utópica no interior de configurações políticas marcadas pelo conservadorismo neoliberal? O progressismo, da forma como ele é pensado pelo neoliberalismo, está fundado sob a ideia de um futuro como simples desenvolvimento do presente, como algo, em grande medida, previsível, mensurável, calculável a partir de uma racionalização “científica” do presente. Ora, se o objetivo da criação artística é a produção de um olhar inédito e crítico sobre o presente, ela deve se fundar sobre uma visão completamente diferente de futuro. Do ponto de vista da criação, o futuro de modo algum é “previsível” ou dedutível, mas está, antes, sempre por ser reinventado. Nessa condição, o futuro é um espaço de possibilidades virtuais que podem ou não se realizar. Por isso, perguntamos: como a criação nas artes da cena pode se dar face ao conservadorismo neoliberal?

Com efeito, defender hábitos e costumes tem se imposto como operação recorrente e, sobretudo, como reação a um conjunto de ações artísticas nos últimos anos. E isso não é um fenômeno local. Trata-se, talvez muito mais, de uma onda globalizada e assumidamente orientada por grupos, notadamente de direita, que procuram de forma mais ou menos articulada, manter determinados preceitos que apenas aparentemente estavam já superados.

Várias são dimensões da cultura que atuam decisivamente na sustentação e disseminação dos conservadorismos. A religião, por exemplo, assume aqui papel fundamental – e isso não apenas em função das crenças que revela e propaga. As redes sociais, por sua vez, aceleraram o ritmo em que microfascismos, preconceitos e posições notadamente retrógradas se espalham e convocam diferentes sujeitos a se posicionar.

Entende-se, portanto que os conservadorismos não dizem respeito apenas a posições individuais de determinados grupos. Eles se disseminam no tecido social e se alinham confortavelmente a diversas promessas e à maquinaria neoliberal. Na nova conjuntura do capital, o conhecimento tem uma direção certa, qual seja, o mercado. Assim, conservadorismos, capital e conhecimento jogam um jogo no qual os efeitos são, em particular, as desigualdades.

Todo esse cenário global coopera para que uma determinada visão de mundo se conserve, assegurando que determinados grupos mantenham o status social e econômico que secularmente tiveram. Os efeitos dessa ligação entre conservadorismo, conhecimento e capital não cessam de se expandir, mantendo países e populações subalternas e pobres.

Frente a um cenário tão problemático, qual seria o papel das artes da cena? Diagnosticar, propor, questionar? Como a cena contemporânea tem expresso tais paradoxos? Como a formação em artes da cena é uma formação para um mundo em transição frente a tais conservadorismos? O que resta a artistas e professores em seu papel social num mundo no qual o conservadorismo emerge sob novas máscaras?

Para essa problematização sobre As Artes da Cena Face aos Conservadorismos, a Revista Brasileira de Estudos da Presença almeja oferecer uma oportunidade para explorar o tema em diferentes perspectivas. Os autores e as autoras podem elaborar ensaios teóricos, artigos provenientes de pesquisas empíricas e/ou históricas sobre Artes da Cena e suas distintas variações em relação a um ou mais dos seguintes tópicos:

  • Performance e conservadorismo
  • Conservadorismo e resistências nas artes da cena
  • As políticas da cena e a cena da política
  • Conservadorismo e formação em artes da cena
  • Performance: política, migrações e conservadorismo
  • História, memória e conservadorismo nas artes da cena
  • Performances e performatividades conservadoras
  • A performance contra o conservadorismo
  • A performance e as organizações sociais
  • Performance e movimentos sociais contra os conservadores
  • Preconceitos, fascismos e performance
  • Performance, relações étnico-raciais e conservadorismo,
  • Práticas Cênicas, relações étnico-raciais e resistências
  • Mídias, performatividade, relações sociais e conservadorismos
  • Performances, diversidade e conservadorismo
  • Racismo e performance
  • Dramaturgias conservadoras e performances contemporâneas
  • Raça, gênero, religião, classe social e outros marcadores performativos
  • Conservadorismo, performance e práticas decoloniais
  • Colonialismo, pós-colonialismo e práticas da cena contra os conservadorismos

Assim, a Revista Brasileira de Estudos da Presença espera receber trabalhos resultantes de pesquisas vinculadas conceitualmente ao campo da performance, do teatro, da dança e de outras linguagens similares, dedicando especial atenção àqueles que utilizam imagens e vídeos para desenvolver suas discussões. Além disso, espera receber trabalhos de áreas imbricadas, fronteiriças e que dialoguem com os termos em tela sob diferentes aspectos. As submissões devem estar de acordo com os padrões do periódico e devem ser postadas diretamente no sistema de submissão para seguir o processo geral de avaliação do periódico. Para submeter um artigo a esta chamada, é fundamental selecionar a seção correspondente (As Artes da Cena face aos Conservadorismos). Lembramos que o periódico não cobra taxas de submissão, nem de publicação e utiliza o sistema duplo-cego de revisão por pares. O texto pode ser enviado em português, espanhol, inglês ou francês e será publicado em duas línguas. Será solicitado aos autores que enviarem textos em português ou espanhol (e àqueles lusófonos) que enviem uma tradução em inglês. A revista providencia tradução para o português de artigos enviados em inglês ou francês, desde que os autores sejam nativos desses idiomas. Maiores informações podem ser encontradas em nosso website, www.seer.ufrgs.br/presenca; nossas diretrizes podem ser visualizadas em “Diretrizes para Autores”.

 
Publicado: 2018-06-01
 
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